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Colaborar, cada um no seu lugar e no seu papel, para que tudo dê certo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.03.16

A vida por vezes surpreende-nos, situações e circunstâncias que não conseguimos explicar. Anos mais tarde lembramos um olhar, uma frase, uma entoação, e a situação adquire um novo sentido e importância.

 

Antes procurava a lógica e o significado de tudo, não descansava enquanto não conseguisse descobrir uma explicação, uma interpretação. Agora é a situação que se revela a pouco e pouco, como um ecrã sensível e interactivo. É assim na vida pessoal, na vida da comunidade mais próxima e nas notícias que chegam diariamente do país e do mundo pelos diversos meios.

 

É por isso que já não consigo ouvir os comentários políticos, por exemplo. A maior parte dessas frases pomposas não faz sentido na nova cultura política que já nos rodeia. E se não valem como interpretação da realidade actual, também não valem como narrativa que se quer substituir à realidade.

É por isso também que já não me interessam as ideologias políticas. O PSD redescobriu a social democracia? Risível. O CDS redescobriu a sua alma democrata cristã? Risível. Até o PAN que está a dar os primeiros passos na experiência dos debates na AR se revela mais credível porque definiu e manteve a sua marca registada. 

 

Quais são agora as nossas prioridades como cidadãos deste país? Colaborar, cada um no seu lugar e no seu papel, para que tudo dê certo. Refiro-me ao orçamento, à economia, ao equilíbrio de poderes social e económico, à fiscalização da actividade financeira. Tudo o que determinará a relação de poder com a CE e o Eurogrupo.

 

Para já, as circunstâncias são-nos favoráveis, as principais instituições da gestão política colectiva, governo e Presidência, revelam a inteligência e a cultura do séc. XXI, da colaboração. 

A nossa auto-estima como país também levou uma refrescadela, o que muito ajuda. Os acontecimentos felizes que para isso contribuíram foram: a visita de Bento XVI em Maio de 2010; o perfil e o papel do Papa Francisco; os resultados das últimas legislativas que permitiram uma nova solução governativa e a candidatura de Marcelo à presidência.

Aproveitemos bem estas circunstâncias de modo a estarmos preparados para lidar com os desafios que valem a pena.

 

 

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publicado às 21:35

Alterações climáticas: o papel dos consumidores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.12.15

A COP21 em Paris está a criar muitas expectativas mas, como Ricardo Paes Mamede lembra no programa "Números do Dinheiro" da RTP3, não podemos esperar que saia dos políticos e das lideranças a verdadeira mudança. Lembrou, ao minuto 33, que não foi por questões de consciência que se acabou com o esclavagismo, o que provocou em Braga de Macedo uma reacção imediata. Depois referiu o papel determinante dos consumidores com uma mudança de comportamentos e de consumo, como o excessivo consumo de carne. Mas foi mais longe, referindo a possibilidade do boicote às empresas poluidoras, o que provocou nova reacção, desta vez nos dois colegas de painel, Braga de Macedo e Teixeira dos Santos. Foi um momento hilariante.

Este programa tem-se revelado uma boa surpresa. António Peres Metello é muito melhor anfitrião e moderador do que comentador. E os debates, entre perspectivas diversas, são sempre interessantes.


Também aqui refiro a importância do papel dos consumidores. É o mais eficaz. E porque simplesmente não há tempo.

 

 

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publicado às 18:25

A melhor defesa dos cidadãos é a prevenção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.12.15

Hoje qual é a melhor estratégia para assegurar a segurança dos cidadãos?

E qual foi a estratégia escolhida pelas lideranças de França, Reino Unido, Alemanha?

 

O que falhou em Paris? Não era lógico que fosse por aí que deviam começar? Reunir para analisar o que falhou, que tipo de violência é esta, como se financia, como adquire o armamento, como se desloca entre países, como se infiltra nos países, como recruta adolescentes? E seguidamente definir as melhores estratégias para lidar com este tipo de ameaça para os cidadãos?

 

Os cidadãos são precisamente o alvo deste tipo de ataques. Os cidadãos que querem apenas viver em paz e poder confiar que as lideranças sHoje qual é a melhor estratégia para assegurar a segurança dos cidadãos?

E qual foi a estratégia escolhida pelas lideranças de França, Reino Unido, Alemanha?

 

O que falhou em Paris? Não era lógico que fosse por aí que deviam começar? Reunir para analisar o que falhou, que tipo de violência é esta, como se financia, como adquire o armamento, como se desloca entre países, como se infiltra nos países, como recruta adolescentes? E seguidamente definir as melhores estratégias para lidar com este tipo de ameaça para ão capazes de assegurar a sua segurança.

 

Os cidadãos têm de observar e reflectir no que se está a passar em seu nome: 

Qual a resposta mais adequada a este tipo de ataques terroristas?

Qual o papel dos cidadãos na sua própria defesa e segurança?

Qual o papel dos cidadãos na questão urgente dos refugiados?

Quem ganha com intervenções militares? 

Quem lucra com a guerra convencional?


A resposta mais adequada a este tipo de violência terrorista é a prevenção, utilizando as novas tecnologias e procurando antecipar possíveis ataques.

Ao nível da Defesa, um novo tipo de intervenção, na nova lógica do séc. XXI: inteligente, rápida, de antecipação. Com a utilização das novas tecnologias. Com a capacidade de ter acesso ao mundo opaco e informal da Finança, porque é aí que hoje tudo começa.

Ao nível social, todos sabemos o que isso implica: investir realmente no futuro dos jovens sem futuro. Contrariar as crescentes desigualdades sociais. E começar já. Claro que as condições sociais não explicam tudo, mas explicam muito. Como disse recentemente um especialista, a frustração de jovens desocupados que deambulam por bairros que são autênticos guetos, e se apercebem das crescentes desigualdades sociais, é uma condição favorável à sua recruta.

 


O papel dos cidadãos é mais importante do que se imagina:

 

Desmontar os equívocos sobre a violência. E, para isso, nada como ler atentamente Arno Gruen: "Falsos Deuses", "A Loucura da Normalidade" e "A Traição do Eu". É preciso compreender a natureza da violência, aprender a lidar com ela e a prevenir que se expanda. E é tão fácil expandi-la, justificá-la e massificá-la... Segundo Arno Gruen, uma grande parte da população é conformista, isto é, facilmente manipulável. É aqui que reside a sua maior fragilidade.

 

Não se deixar embalar pelos discursos oficiais, distanciar-se de respostas reactivas, pensar pela sua própria cabeça. Observar as decisões políticas das lideranças, e a comunicação social que matraqueia as posições oficiais. Observar a realidade sem filtros ilusórios ou distorcidos. Só na BD ou nos discursos oficiais o mundo é a preto e branco. As lideranças falam de uma ameaça exterior, como se a violência viesse de fora, de um território delimitado e de culturas e nacionalidades definidas. A ameaça já cá está. Recrutando adeptos, jovens vulneráveis e impressionáveis à glorificação da morte, a ilusão de uma heroicidade. Não é por acaso que estes jovens são adolescentes. E não é por acaso que vivem em bairros sem futuro. Ninguém pode viver sem futuro. 


Estar atento e vigilante, de forma calma e ponderada, a todos os apelos à violência e tentar definir a forma como prevenir os focos de violência. Prevenir é agir de forma empática e sensata, cada um à sua dimensão e responsabilidade, e em colaboração. As redes sociais são um meio de comunicação e de informação muito poderoso. A globalização não beneficiou apenas a finança sem lei nem regras, os negócios internacionais obscuros, e agora este tipo de violência contra cidadãos. A globalização aproximou os cidadãos à escala planetária.


Promover a cultura da empatia e da colaboração. A intervenção vai passar pela educação das novas gerações, pela sua preparação para um mundo que publicita e glorifica a violência e a morte. A sua preparação para observar e reflectir, e agir de forma autónoma e responsável. A sua preparação para identificar a violência, no local onde vive, na família, na escola, na universidade, nas redes sociais, na finança, nas multinacionais, na venda de armas, nos crimes ambientais, nas decisões políticas. O ódio e o medo são os melhores aliados da cultura da violência e da destruição. É o ódio que preenche o vazio da linguagem do poder, e é o medo que a alimenta.


Num vídeo que se tornou viral, um pai tenta explicar ao filho o inexplicável sobre a violência, revelando a atitude saudável, calma, empática, de responder à violência. Quando a criança diz, amedrontada, Temos de mudar de casa, o pai responde, A França é a nossa casa. Mas eles são maus..., Há maus em todo o lado. Mas eles têm pistolas..., E nós temos velas e flores..., As velas e flores é para nos proteger.


Um desabafo nas redes sociais que também se tornou viral, o de um pai que perdeu a mulher: Náo terão o meu ódio.


E pensemos na coragem de alguns que, perante os tiros no recinto, ainda assim, protegeram outros com o seu corpo. Ou nos que, na rua, foram socorrer os feridos sem pensar nos riscos que corriam, enquanto outros escondiam os fugitivos aterrorizados na sua casa.

 

 

 

 

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publicado às 18:10

Construir a esperança

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.02.14

Por mais sombrio que o presente e o futuro nos pareça, ver a realidade nua e crua é o primeiro passo para construir a esperança. É que não se pode construir a esperança sobre ilusões.

 

A esperança implica vitalidade, acção, movimento, mudança. Podemos visualizar um determinado cenário que queremos concretizar, mas se não iniciarmos um qualquer percurso que nos aproxime desse cenário, a esperança enfraquece.

 

A esperança é mais dinâmica quando lembrada, alimentada, partilhada. É como um exercício diário, um teste à nossa paciência. Por isso, a esperança respira melhor na interacção social

 

A esperança que podemos construir depende de um debate sério na sociedade civil, uma vez que da lógica partidária pouco podemos esperar a não ser a feira das ilusões. Alguns conseguem desmontar algumas dessas ilusões, mas já não conseguem sair da cultura do seu grupo de referência. A esperança depende de uma informação de qualidade, fidedigna, científica digamos assim, e incluo aqui as ciências sociais. 

 

Para os cidadãos e as suas vidas, este período de tempo limitado ANTES das eleições europeias é uma oportunidade única para um debate sério sobre o país que queremos a partir daqui. Não é a partir da saída da troika, pois a troika vai manter-se cá através do governo-troika, é a partir das eleições europeias.

 

 

As consequências do ajustamento são hoje fáceis de avaliar: austeridade para pobres, prosperidade para ricos. Afinal o que é que foi ajustado? Isso mesmo. Trabalho, pensões, acesso/qualidade do serviço público e prestações sociais. Quanto aos próprios políticos, incluindo os partidos, o parlamento, a administração pública central e local, não foram ajustados. E os grandes grupos económicos e a finança, também não.

As lideranças políticas que repetem agora até à exaustão que têm a legitimidade dos votos, distanciaram-se tanto do país e dos cidadãos que já não os representam, nem o país nem os cidadãos. Além disso, qualquer contrato que tenham feito com os eleitores já foi ignorado e traído vezes sem conta.

Mas os cidadãos ainda foram duplamente humilhados: quando se depararam nas televisões com o auto-elogio governamental e quando os tentaram iludir sobre a solidariedade europeia do empréstimo, os benefícios do ajustamento, e ainda quando lhes acenaram com a taxa de natalidade.

Triplamente humilhados se pensarmos na propaganda eleitoral europeia: act, react, impact. Reparem que apesar da devastação social e económica que a austeridade deixa atrás de si, insistem na mesma lógica. E o BCE ainda tem lucros com os empréstimos da solidariedade europeia... A propaganda eleitoral europeia é pueril e até perversa, e corresponde a uma ilusão. Desta vez é diferente, é o que o agressor doméstico compulsivo diz ao agredido: prometo que nunca mais te bato. Além de se ter distanciado dos cidadãos, a Europa das estrelinhas não deu o exemplo da fórmula de rigor que aplica aos países membros em apuros, é uma máquina pesada e mesmo extravaganteEsta Europa que se desviou do projecto inicial já não representa os cidadãos europeus. A esperança só pode estar numa Europa dos cidadãos. 

 

 

 

Temos, pois, de desmontar as ilusões que nos vendem uma a uma nas televisões:

 

1 - Não há saída da troika: a única diferença é que em vez das visitas periódicas, teremos uma monitorização à distância que ainda pode ser bem pior. O governo-troika irá continuar a razia dos cortes no trabalho, pensões, prestação de serviço público, prestações sociais, a que chamará ajustamento e rigor. De fora continuarão aqueles que não foram beliscados com a austeridade e, pasme-se, que até prosperaram com a desgraça dos seus conterrâneos.

 

2 - A esperança de uma vida com dignidade e qualidade não é possível com este governo e esta UE: a única oportunidade de construir alguma esperança para os cidadãos e as suas vidas é AGORA, como tenho insistido, ANTES das eleições europeias. Depois cai-nos em cima a lógica da austeridade e do ajustamento, que significa trabalho mal pago, trabalho precário, trabalho à hora, ia dizer à jorna, como em tempos idos. Os mais velhos continuarão a ver as suas reformas reduzidas, a ter dificuldade em comprar medicamentos e em manter condições básicas de dignidade. A emigração continuará a ser a única saída para jovens e menos jovens, qualificados e menos qualificados.

 

3 - A nossa recuperação económica só se pode concretizar e estabilizar com uma mudança da lógica europeia: não será com a união bancária, fiscal e política, como nos prometem, será precisamente com a flexibilidade de acordos económicos, flexibilidade fiscal e relativa autonomia política. A lógica inversa, precisamente. Quem julga que muda alguma coisa com a reciclagem da troika, isto é, o FME em vez do FMI, pense duas vezes. A cultura de base desta Europa desvirtuada e distante dos cidadãos mudou? A lógica que preside actualmente nesta Europa, em que os países mais fortes decidem sobre o destino dos mais fracos, que falhou na prevenção da crise financeira, que falhou na supervisão bancária, que falhou no controle das fugas fiscais, que falhou na intervenção aos países membros em dificuldades, acham mesmo que mudou? Que desta vez vai ser diferente?

 

 

Aqui ficam alguns vídeos a que juntarei outros vídeos que vou descobrindo no Youtube, neste período fundamental até às próximas eleições europeias:

 

 

 

 

 ...

 

 

A esperança também se constrói pela percepção de alguma capacidade de intervenção (empowerment) e de prevenção de situações que colocam em risco a vida e o futuro. Ora, neste momento, as pessoas sentem-se precisamente despojadas de todos os mecanismos de intervenção e de prevenção, sem qualquer poder sobre as suas próprias vidas e o seu futuro, sem vislumbrar sequer uma garantia de que a sua vida não vai piorar. 

 

Os princípios e valores (dimensão cultural) que lhes tinham sido vendidos pela democracia nacional e pela Europa moderna, foram sendo traídos, ignorados e até desprezados, perante os seus olhos incrédulos. Assistiu-se nas televisões à revolta dos gregos na praça Sintagma, e em vez da empatia com o seu desespero e impotência, divulgou-se na comunicação social o lado dos erros da gestão pública, o lado dos credores, o lado do poder. E no entanto, todos sabem que os gregos ricos escapam aos impostos. Quem foi ajustado violentamente? As populações indefesas. Esta é a realidade. Também vimos os nuestros hermanos nas ruas de Madrid, também sentimos o seu desespero, mas quem foi resgatado foram os bancos. Já viram alguém ser responsabilizado pela ausência de supervisão bancaria? Ou por se permitir a grande fuga e fraude fiscal no coração da Europa?

 

Há muitas formas de violência, física e psicológica. A austeridade aplicada às pessoas, às suas vidas, é uma forma de violência, física e psicológica. Se as pessoas tivessem observado uma qualquer racionalidade, equidade e legitimidade nas iniciativas que as foram despojando de qualidade de vida e de autonomia, a esperança ainda teria sido possível. Mas as pessoas perceberam que tinham sido enganadas, havia uma minoria que escapara à garra violenta da austeridade e que até prosperara com a desgraça da maioria. Também perceberam que, além desta desigualdade e injustiça, os objectivos da austeridade não eram a redução da dívida, do défice, e o ajustamento do estado na parte que deveria ser ajustada (reforma do estado), mas sim o ajustamento das vidas da maioria, o seu empobrecimento e a desvalorização progressiva do trabalho. Ora, isto é inadmissível numa democracia de qualidade.

 

Quando agora emergem à superfície os casos de violência doméstica, violência nas escolas, violência nas universidades, a avaliação deve ser feita em termos abrangentes e numa perspectiva cultural. Esta violência não é apenas potenciada pela austeridade, a violência é a sua própria marca, faz parte da sua cultura.

 

A prevenção de situações como as que actualmente nos condicionam e oprimem, só pode ser obtida com a avaliação dos resultados da intervenção das instâncias internacionais e europeias, e dos governos nacionais. Sem esta responsabilização a esperança no futuro fica comprometida. Estamos entalados na Europa das estrelinhas e se a sua cultura não mudar, se os princípios e valores que a fundaram não forem reabilitados, situações como a que actualmente vivemos voltarão a ocorrer e tenderão a piorar.

 

Mas não se trata apenas de avaliar os resultados da intervenção dos gestores políticos e financeiros, trata-se de prevenir de forma mais profunda, os riscos de violência futura: se propomos uma selecção profissional cuidadosa para qualquer actividade com alguma responsabilidade, mais cuidado se exige a um perfil profissional cuja intervenção irá afectar milhares e milhões de pessoas. E este cuidado não se deve ficar apenas pelas dimensões profissionais, mas também pela sua personalidade. Esta ausência de empatia que vemos generalizar-se nas lideranças políticas e financeiras e a sua colagem ao poder que é identificado com o sucesso, devia alertar-nos como comunidade, porque é um sinal de alarme. 

 

 

 ...

  

Como referi logo no início, para construir a esperança é necessário perceber a realidade em que vivemos e o seu contexto, numa perspectiva o mais objectiva possível, e por isso convoquei as ciências sociais. A psicologia e a psicologia social, a sociologia, e mesmo as neurociências, podem ajudar-nos a compreeender a lógica deste ajustamento social da austeridade, e como foi possível efectuá-lo de forma drástica e violenta, e como, tendo-se verificado ser contraproducente, portanto, ineficaz e até prejudicial, continua activo como um plano sem qualquer avaliação e responsabilização das lideranças que o promoveram e aplicaram.

 

A parte mais perversa da lógica da austeridade é: 

 

- a sua apresentação como benéfica, um remédio, quando na verdade, é um veneno que mata, por mais contrariadas que as lideranças que a defendem fiquem com esta frase. Além de matar fisicamente, a austeridade mata psicologicamente. Quando se instala o medo, a insegurança, a instabilidade, o desalento, a apatia, a esperança enfraquece e pode mesmo desaparecer.

 

- a austeridade foi-nos apresentada por lideranças que se apresentaram como o nosso médico, e os credores como benfeitores, a generosidade europeiaé um favor que nos fazem, pois a sua aplicação leva-as a fazer o sacrifício político de a aplicar, o que muito lhes custa...

 

- e agora um suspense... depois de muito trabalho e determinação da sua parte, a nossa situação mudou, mudou-se a página, a parte pior já passou, para poderem dizer que... valeu a pena.

 

- o que nos leva à parte mais perversa da austeridade: para a poderem defender, as lideranças têm de negar a realidade e o seu contexto, e apresentar, em sua substituição, a sua versão da realidade onde a austeridade se adapta. Têm, igualmente, de mentir sobre o futuro, pois a lógica da austeridade, não sendo viável não tem fim, é para permanecer como nova normalidade para a vida das populações, isto é, para a vida concreta das pessoas é sempre a descer mesmo que os gráficos estejam a subir.

 

 

A esperança é uma fonte de vitalidade e de acção virada para o futuro. É incompatível com um ambiente de falta de confiança na orientação que é proposta a uma comunidade, de ausência de expectativas fiáveis e de instabilidade constante. Esta instabilidade é provocada pelas lideranças que alteram as regras do jogo a toda a hora, para adaptarem a realidade à austeridade que, como vimos, não tem fim. O desespero levará à revolta, o que agravará a instabilidade.

 

Esta Europa das estrelinhas tinha instrumentos para resolver as diversas situações em que alguns países-membros se encontraram, mas escolheu aproveitar a oportunidade para fazer o ajustamento social com que provavelmente as suas lideranças sonhavam há muito:

- acabar com o serviço público de qualidade que consideravam um luxo muito caro;

- empurrar a classe média para baixo, pois é fonte de dores de cabeça quando reclama democracia;

- promover a aplicação e banalização da violência sobre populações inteiras e insistir nesse caminho.

 

 

Desta vez escolhi 3 vídeos relativos à América mas que respondem às mesmas grandes questões e grandes desafios que enfrentamos como país entalado na Europa das estrelinhas:

 

 

 
 
 

 

 

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E pronto, penso que já referi o essencial sobre a nossa situação actual. Para finalizar como nos filmes, deixo aqui a lista dos principais representantes da marca Austeridade para pobres, prosperidade para ricos, primeiro o grupo internacional e depois o grupo nacional (preparei aqui algumas surpresas).

 

Grupo internacional da marca: Christine Lagarde; Durão Barroso; Olli Rehn; BCE; Eurogroup. 

 
Grupo nacional da marca: Os que melhor a representaram foram Vitor Gaspar e Passos Coelho, secundados por Maria Luís Albuquerque e Paulo Portas.
Mas não podemos esquecer que esta marca já tinha sido iniciada pelo anterior PM e os seus ministros das Finanças e da Economia: Teixeira dos Santos e Manuel Pinho, que não tiveram oportunidade de a implementar.
O privilégio de a implementar com toda a sua violência (para quem gosta de bater no mais fraco) acabou por ser dado ao par PSD-CDS.
 
Quem tiver a paciência de acompanhar os posts que aqui deixei, vai poder refrescar a memória ANTES de votar nas próximas eleições europeias.
Pense bem: quer continuar a levar pancada ou quer libertar-se desta praxe violenta sobre os portugueses?
É que se a Europa descobriu que as mulheres são um alvo fácil - violência doméstica e no trabalho -, os portugueses pobres,  os remediados e os que eram da classe média foram um alvo apetecível para esta marca violenta "Austeridade para pobres, prosperidade para ricos": 9 em cada 10 portugueses já levou pancada deste governo (impostos, cortes vários em salários e pensões sob falsos pretextos, desemprego, emigração, etc.) tendo parte destes portugueses, porque são sempre os mais frágeis, já levado umas traulitadas do anterior governo (impostos, desemprego, emigração, cortes de subsídios como o abono de família e os de portadores de deficiência; perseguição da ASAE aos feirantes, etc.).
 
 
Portanto, a marca já vinha de trás, é uma cultura praxista que já estava a emergir. Por vezes, visualizo a alegria pueril de Manuel Pinho e o seu sonho acalentado e finalmente concretizado, dos salários baixos... Ah, como era bom governar a desorçamentar e a fazer negócios futuristas apresentados em powerpoint... não ter de interagir com o povo que só serve para trabalhar, pagar impostos e votar de 4 em 4 anos...
Francisco Assis terá de se esforçar muitíssimo se quer vender a sua Europa ao centro e ao centro direita que tem princípios e valores democráticos, pois a marca do anterior governo PS não era amiga da democracia, distanciou-se dos cidadãos, acentuou as desigualdades sociais, iniciou a desertificação do interior do país, ignorou a supervisão bancária, escolheu proteger os bancos e os grandes grupos económicos, etc. e foi igualmente um bom aluno de Bruxelas.
 
A cultura narcisista foi-se implantando em Portugal: tudo pela imagem, nada pela vida concreta das pessoas. Desde que fique bem nos gráficos e nas estatísticas, o resto não interessa.
 
 
 
 
 
 
 

publicado às 23:07

O Presidente decidiu não arriscar mais atribulações no país. O acordo apresentado pelos partidos da coligação no governo não lhe garantia essa estabilidade. O país não podia ficar cativo de um governo que não lhe dava essa garantia. A sua decisão envolve os 3 partidos que assinaram o memorando, um compromisso de salvação nacional, e fixou-lhes um prazo (assim como à troika) para receberem o seu prémio (poderem marcar as eleições antecipadas). Concordo.

Aqui o Presidente agarra o PS pelo braço e lembra-lhe que não pode fugir à sua parte da responsabilidade pela situação do país. O PS, que tinha apresentado há dois meses um novo rumo, que se iria abrir à colaboração com todas as forças políticas, representantes da concertação social, movimentos cívicos, etc., à primeira sacudidela pede eleições, antes mesmo de analisar as consequências dessa opção na fase de avaliações da troika.

 

Mas a análise do Presidente também lembra aos partidos em geral que a sua postura será avaliada pelos cidadãos. De qualquer modo, a reacção destes partidos foi a mais célere: o PCP, o partido mais previsível, pede eleições e mudar de política; o BE, o partido mais aventureiro, também pede eleições, talvez porque aparentemente não tenha nada a perder, afinal baixou drasticamente nas últimas eleições e agora teria mais votos; os Verdes mantêm o mesmo registo de sempre e pedem eleições.

 

Agora vejamos:

- o Presidente está a tentar segurar as pontas soltas da inabilidade do PM ao não comprometer o PS, logo desde o início, que aproveitou para se descolar da assinatura do memorando, independentemente das alterações posteriores, e de não ter sabido gerir o equilíbrio de forças na coligação. O que vimos nestes 2 anos foi um PM a escudar-se por trás de um técnico que atraiu a revolta generalizada;

- o Presidente sabe que as eleições apenas mudarão a composição destes 3 partidos na fórmula governativa, apenas muda a sua relação de forças. Se não for PSD-CDS, será PS-CDS. Nem sequer se prevê a possibilidade de um entendimento dos 3 juntos! O que revela que os partidos não aprenderam nada, não evoluíram, não se adaptaram aos desafios, mas sobretudo não perceberam nada! Dizem que governar em coligação não é uma tradição portuguesa (!) Esta é essa oportunidade. Nem precisam de andar de braço dado, é só encontrar uma forma de encontrar um compromisso nas questões fundamentais;

- o Presidente sabe que cabe à Assembleia da República resolver a fórmula governativa. É para aí que está a dirigir os holofotes e é aí que está a colocar a grande responsabilidade. É tudo o que os partidos actuais e a sua cultura de base não querem! Responsabilidade de levar o país até um prazo que nos interessa fixar, a saída da troika, o final da intervenção externa, é muito mais difícil do que discursar na AR. Mesmo que se coloquem na posição irredutível de não aceitar a troika nem as suas exigências, têm de explicar aos cidadãos as consequências dessa opção;

- o Presidente sabe que tem de falar para a Europa, o seu discurso tentou tranquilizar os credores ao fixar um prazo, até à saída da troika evitarei as incertezas políticas mas espero que contribuam com a vossa parte e que facilitem a vida ao país, afinal o governo foi o bom aluno e os cidadãos portugueses já colaboraram com os seus sacrifícios. Embora todos saibam, cidadãos incluídos, que esse prazo apenas corresponde ao fim das visitas periódicas dos 3 técnicos estrangeiros, pois continuaremos a precisar das rodinhas de apoio na bicicleta até nos equilibrarmos de novo, esse prazo é fundamental, não apenas como mensagem à troika mas também como marco psicológico para o país.

 

 

Ontem ficou exposta a crise do sistema partidário que revela uma crise cultural, de valores, de princípios, quando vimos o seu embaraço, a sua hesitação, em reagir à decisão do Presidente. Os danos foram geridos atabalhoadamente pelos comentadores de serviço nas televisões. Gostaria de saber se a maioria dos comentadores domina bem o português, porque pela diversiade de interpretações do discurso do Presidente, ou revelam necessidade urgente de revisão da interpretação de textos e da gramática ou então desconfio que se trata de pura manipulação informativa.

Os partidos que ficaram mais bloqueados: PS, em primeiro lugar, PSD, em segundo. Muito mais profissional foi a resposta do CDS, apesar de tudo. Acolheram a decisão do Presidente que compreendem.

 

Para já, os cidadãos perceberam que:

- os partidos são intermediários de interesses e não representam o país entendido como o colectivo, os cidadãos. O Estado, que deveria ser gerido com todo o respeito, é por eles percebido como a gestão do poder e de influência. O PS e o PSD não prestam contas aos cidadãos e, pelo que se percebe até neste episódio recente das divergências do ministro das Finanças do anterior governo com a actual ministra das Finanças, ninguém diz a verdade em questões como financiamento bancário através de mecanismos de alto risco;

- os cidadãos sabem que, no fundo, as eleições não vão mudar este estado de coisas, a cultura dos partidos, os interesses que defendem, a sua cada vez menor legitimidade pela perda de confiança dos eleitores. Sabem que o PS não esclareceu sequer como levou o país à falência, mesmo que venha o ex-PM falar semanalmente à televisão e o PSD não esclarece os cidadãos sobre a real dimensão do Estado e porque decidiu cortar no mais fraco, nos cidadãos;

- não se sentiu nenhuma demonstração de entusiasmo especial pelos cidadãos quanto a eleições antecipadas, mas os partidos não revelaram sensibilidade para ler esses sinais dos tempos;

- vir falar de democracia quando os cidadãos não têm acesso à informação que conta é risível. Na ausência de transparência e de justiça,  e com o aumento das desigualdades sociais, onde é que está a democracia?

 

A minha previsão:

- Seguro, se quiser sobreviver aos adversários mais próximos à liderança do PS, terá de revelar sentido de responsabilidade e pegar novamente no dossier das propostas, afinal o Presidente já lhe deu uma motivação: se os 3 partidos que assinaram o memorando levarem o país a bom porto até ao prazo que nos importa fixar, a saída da troika e fim do programa de intervenção externa, em Junho de 2014, poderão reunir e definir o calendário das eleições antecipadas;

- Passos, se quiser sobreviver aos adversários mais próximos à liderança do PSD (e só espero que não nos surja Rui Rio como já ouvi algures), altera a sua postura de entrincheirado a defender a sua posição numa batalha alucinada, arranja um treinador em negociação, e faz de anfitrião dos outros 2;

- Portas não terá outro remédio senão alinhar no compromisso, afinal dizem que é um bom negociador. Além disso, a 3 a pressão sobre o CDS é menor, além de que cabe aos 2 maiores partidos a partilha da maior responsabilidade pelo desastre colectivo.

 

Dizem-nos que o Presidente agravou a crise (!) porque ninguém quer assumir a sua responsabilidade e querem continuar a viver no melhor de dois mundos: imunes à profunda mudança cultural que se avizinha, imunes à contenção de despesa, imunes à responsabilização, imunes a prestar contas aos cidadãos.

O PSD justificou o aumento de impostos e depois os cortes drásticos com a mensagem moralista vivemos acima das nossas possibilidades. Em certos momentos até o CDS se colou a este moralismo preconceituoso e injusto. Mas ontem ouvi, a um comentador mais experiente da vida global num debate na RTPN, que a maior responsabilidade pelo que nos aconteceu na Europa se deve ao BCE. Concordo. E também disse: só não vê quem não quer ver.

 

 

 

 

publicado às 13:15

É que por enquanto este poder supra-nacional da CE, do BE e do FMI apoia-se na legitimidade financeira, no crédito financeiro e no suporte ao acesso aos mercados. Mas é por aí que se quer legitimar o poder total: político, fiscal, económico, o trabalho, a organização social, e sabe-se lá mais o quê.

 

Há qualquer coisa de muito perverso e deturpado que se está a desenhar actualmente na Europa e que se quer impor como inevitável aos cidadãos europeus. Esta chamada crise financeira caracteriza-se afinal por uma crise profunda de valores humanos, de consciência e de sentido de responsabilidade, perfeitamente visível nos discursos contraditórios das lideranças europeias e das organizações que supostamente deveriam ajudar países a recuperar mas que apenas destroem economias e democracias.

O federalismo que nos querem impor assemelha-se a uma réplica dos States na sua organização centralizada e dominada por um banco central.

Se olharmos com atenção para este visualizador sobre as desigualdades de rendimentos nos States, onde cabe ali o valor do trabalho? Não cabe. O trabalho é simplesmente desvalorizado e nem sequer considerado.

 

Já imaginaram o poder que isto envolveria sobre os estados membros? Quem está sob resgate da troika já sentiu esses dedos frios no pescoço: empresas a fechar, pessoas despejadas das suas casas, desemprego a disparar, jovens sem qualquer oportunidade de futuro, velhos sem perspectivas de manter as despesas com remédios, a classe média empurrada para a pobreza, a pobreza a generalizar-se.

 

Às vezes isto lembra-me War Inc. mas ainda não é esse caos de War Inc. que vemos a desenhar-se na Europa. É uma nova ordem que lembra Orwell na concentração do poder numa entidade inacessível mas que se simula próxima, na organização do poder em grandes potências-continentes, e nas principais características culturais: informação-propaganda, vigilância permanente, trabalho desvalorizado, tudo é produto de consumo. O caos de War Inc. ainda se pensa estar circunscrito a algumas partes do globo suficientemente distantes para não os incomodar: promovem-se os conflitos para adquirirem armamento e andarem entretetidos. Geralmente as interferências antecipam apropriação de recursos. Ou então circunscrito a determinadas camadas da população permeáveis ao consumo da informação de massas (propaganda) e ao entretenimento de massas (cultura do lixo).


Onde é que esta nova ordem=organização do poder encaixa neste séc. XXI da sociedade da informação?

Não encaixa enquanto houver a possibilidade de acesso à informação, à troca de ideias e à mobilização social.

Mas a informação que conta é vedada aos cidadãos. Os dados são-lhe apresentados num determinado contexto, com uma interpretação aceitável.

Assim, o que vemos actualmente acontecer é a divulgação ilegal de informação (!) através do acesso ilegal a serviços secretos e/ou da fuga de informação, ilegal portanto (!!) por funcionários desses serviços que a obtiveram ilegalmente (!!!). Seria preferível que a informação que diz respeito aos cidadãos, às suas vidas, à sua segurança, estivesse acessível pura e simplesmente.

O que é que esta informação obtida ilegalmente e divulgada ilegalmente revela? Simples cidadãos podem ser vigiados. Não lembra Orwell? 

O mais perverso é que dados de simples cidadãos também podem ser traficados e utilizados indevidamente por empresas que se movimentam numa cultura dominante em que tudo é um produto de consumo. E o mais perigoso é os seus dados poderem ser manipulados. Ninguém estaria em segurança em parte alguma.

Aqui no anexo 3 referi-me a este assunto de forma um pouco descontraída: quem não tem nada a esconder nada teria a temer. Mas não é bem assim. Aceitar como uma actividade normal e legítima, em nome da segurança por exemplo, a possibilidade de vigilância das mensagens electrónicas ou comunicações telefónicas, é dar a esses serviços um poder enorme, é praticamente pôr as nossas vidas nas mãos de organizações desconhecidas.

Isto, aliás, não é muito diferente da aceitação de um poder supra-nacional que se quer impor aos cidadãos, assim como de uma cultura dominante que não os considera nem respeita.

 

 

 

publicado às 14:37

A sociedade civil = os cidadãos no seu universo e nos seus sub-grupos, a sua cultura caracterizada pela diversidade, vitalidade, criatividade e coesão grupal na capacidade de sobrevivência, os despojados sistematicamente de direitos de cidadania e de margem de manobra de alguma autonomia, os massacrados sistematicamente pelos impostos e cortes, os penalizados pela gestão danosa dos recursos públicos e culpabilizados por decisões e escolhas que não são da sua responsabilidade, os mais vulneráveis, etc.;

O sistema = a organização política, a sua estrutura e organização (partidos políticos, assembleia da república, justiça, administração interna, câmaras municipais, sindicatos, empresas públicas, institutos públicos, fundações, etc.), a sua cultura de base corporativa, as elites políticas e financeiras, os grandes grupos empresariais protegidos e/ou favorecidos, as excepções,  etc..

 

Um dos grupos, a sociedade civil, é diverso, complexo, criativo, é capaz de se unir para tentar sobreviver e de colaborar com tempo e energia em situações de emergência. Essa capacidade de sobrevivência tem sido sistematicamente posta à prova com as condições que lhe são impostas pelo segundo grupo.

O outro, o sistema, é organizado, estruturado, centralizado, constituído por sub-grupos que funcionam em rede de influências e pressões mútuas, a cultura que o caracteriza é corporativa, isto é, a sua prioridade é manter o seu poder e regalias, há uma lealdade tácita entre os sub-grupos não perceptível ao olhar do cidadão, detém o poder de decisões que afectam a sociedade civil apesar da ausência de mecanismos de avaliação, de equilíbrio e de verdadeira representatividade democrática.

 

Estão a ver que estes dois grandes grupos são completamente diferentes, na sua estrutura e organização?

Eles nem se encontram, são duas linhas paralelas que só a curva do tempo vai conseguir cruzar um dia.

 

Agora vamos introduzir aqui o Estado = entidade amorfa de que se está sempre a falar mas de que se desconhece a verdadeira dimensão, o que o leva a assemelhar-se a um icebergue de que só vemos a parte visível, a parte da administração pública e da prestação de serviços públicos, a parte que tem estado a ser cortada sem dó nem piedade, a parte da sua utilidade pública. Na parte visível também está uma parte do sistema, a organização política e administrativa, e querem-nos fazer crer que essa é a dimensão do Estado, mas há outra parte do Estado que está submersa, de que não temos informação acessível. A parte submersa não a conhecemos na sua dimensão nem utilização. Podemos depreender as influências e favorevimentos, os pactos, os acordos, os negócios, a informação privilegiada, o secretismo, etc.

 

O sistema sustenta-se no Estado e/ou prospera encostado ao Estado, pelo menos no nosso país. Isto é assim desde o séc. XIX, pelo menos. Aliás, estamos numa fase da nossa vida colectiva, um impasse, que se assemelha ao da monarquia constitucional, naquela fase da bancarrota e da alternância sem saída.

 

O lado mais benigno do sistema é quando tenta ser útil à sociedade civil, e aqui estamos a falar de algumas elites económicas e financeiras, talvez para sentirem que isso pode contribuir para um certo equilíbrio ou mesmo porque, de forma inteligente, já perceberam que as fracturas sociais vão prejudicar os seus negócios e/ou acabar por comprometer o seu estilo de vida privilegiado. Assim, multiplicam-se em conferências sobre a nossa situação colectiva actual, procurando diagnósticos colectivos que nunca os comprometem e/ou responsabilizam, mas que dão a ideia de querer encontrar uma saída criativa e equilibrada para o país como uma comunidade colectiva. Posso estar a ser injusta, mas já não embarco na bondade do sistema. De qualquer modo, sempre é preferível ver a inteligência em acção, e dali poderem até surgir saídas airosas para muitos até da sociedade civil, do que o lado mais perverso do sistema.

 

O lado mais perverso e violento do sistema, o do oportunismo sem escrúpulos, vem geralmente da alta finança, quando se refere à sociedade civil com o maior desprezo e preconceitos: deve-se baixar os salários... vivem acima das suas possibilidades... aguentam... preferem viver do subsídio de desemprego do que trabalhar...  Também, de vez em quando, de algum quadro de topo de alguma empresa corporativa: os preços estão altos por causa do IVA. Mas aqui não há equivocos: a sociedade civil já sabe que se tem de defender dessa parte do sistema e que não pode contar com ela.

 

O lado mais enganador do sistema mas igualmente oportunista, e neste caso aventureiro (porque não são eles a arriscar o pescoço), é o político: quando algumas elites políticas e intelectuais tentam cavalgar a revolta da sociedade civil, como se estivessem realmente preocupadas ou empenhadas em ajudar a resolver o actual impasse. Primeiro, se quisessem ajudar a sociedade civil tê-lo-iam feito durante a anterior governação socialista. Na altura dos desvarios financeiros, dos negócios mal explicados, da tentativa de controle das secretas, da pressão sobre a informação televisiva, dos atropelos à liberdade de expressão, da sinalização de manifestantes e da promoção da delação (é muito diferente a situação do professor de uma DREN que diz uma anedota insultuosa sobre o PM no local de trabalho da situação de um jornalista e figura pública insultar a Presidência num jornal). E perante tudo isto o que dizia o ex-Presidente Mário Soares ao então PM? Um bocadinho mais de Esquerda...

 

A sociedade civil só tem vantagens em não se deixar manipular pelo próprio sistema que tenta boicotar a sua margem de manobra de influência, a sua diversidade e criatividade, a sua capacidade de se unir e organizar de forma inteligente.

Basta-lhe olhar para Setembro do ano passado: a manifestação de 15 de Setembro teve muito mais impacto do que todas as outras manifestações sindicais ou mesmo que todas as greves sindicais. Só isto já dá que pensar, não acham?

É verdade que a UGT na altura e algumas organizações representantivas de sectores empresariais tiveram um papel estruturante e depois cicatrizante da fractura exposta, mas em todo o caso a iniciativa partiu da sociedade civil, as pessoas que encheram as ruas das cidades do país eram pessoas comuns, todos irmanados numa aflição comum, todos irmanados numa necessidade de encontrar a tal saída para o impasse que o sistema não lhe quer dar. Porquê?

Porque isso implicaria abdicar do seu maravilhoso status quo.

 

É sempre assim, quando o político se alia ao intelectual para liderar movimentos da sociedade civil  com o qual nada tem a ver, é para o boicotar e/ou fragilizar. Porque esse movimento o iria pôr em causa.

Ou o ex-Presidente acha que a sua fundação e o seu peso no erário público, no bolso do contribuinte, se manteria se a sociedade civil pudesse repor algum equilíbrio no Estado, conhecendo a sua verdadeira dimensão, analisando-o, avaliando-o, reorganizando-o, reabilitando-o, tornando-o sustentável?

Acham as elites políticas que tentam cavalgar esta revolta que as reformas vitalícias não contributivas continuariam incólumes?

Acham que o nº de deputados se manteria, assim como a sua fraca representatividade? Assim como o nº de câmaras municipais?

A ausência de transparência? A ausência de avaliação independente? A justiça ineficaz e desequilibrada?

O aumento de desequilíbrios sociais? Uma economia a sustentar a finança?

 

Porque é que eu acho que o intelectual nada tem a ver com movimentos da sociedade civil? Porque é que eu acho que, embora se diga da sociedade civil, pertence ao sistema? Primeiro, porque só desperta para a realidade quando se vê pressionado, e a vez da prensa na sua parte do Estado há-de chegar também a seu tempo se a austeridade se mantiver. E segundo, porque faz parte das elites que têm vivido do Estado ou a ele encostadas, não arregaça as mangas, não arrisca, não tem experiência da vida concreta, foi sempre poupado aos percalços da sobrevivência, da subsistência, etc. E reparem sempre nos nomes sonantes (no sentido de nos soarem familiares por tê-los visto e ouvido tantas vezes e em tantos lugares que já os reconhecemos), são sempre os mesmos, valha-os Deus!

 

De novo fomos catapultados para a monarquia constitucional do séc. XIX e da fase da bancarrota e do impasse da alternância sem saída. De tal modo já lá estamos que até o próprio ex-Presidente e dinamizador da conferência "2 anos de troika, libertar Portugal da austeridade" se referiu há uns tempos ao regicídio para pressionar o actual Presidente: por muito menos se deu o Regicídio (!), lembram-se?

Ainda iremos concluir que a República foi apenas uma forma criativa do sistema se reorganizar para ficar tudo na mesma. Tal como a revolução dos cravos, um intervalo apenas, para voltar tudo ao status quo.

 

A verdadeira fractura cultural, a mais profunda, foi muito anterior à República. Essa ferida ainda está aberta apesar do cordão humano e dos balões coloridos no maravilhoso céu azul deste país negligenciado.

São muito poucos a influenciar, de forma determinante e por vezes definitiva e irreversível, a vida de muitas pessoas comuns. Essa influência também foi cultural, apagar memórias de um Portugal antigo para reescrever uma História monolítica, a oficial, a da instrução e da literacia por cima da cultura antiga, da sua riqueza, diversidade e complexidade. Essa influência foi a mais violenta e perversa, só equivalente a um buldozer metálico a arrasar bibliotecas humanas, livros vivos, olhos brilhantes, inteligência e sabedoria transmitida de geração em geração.

 

Só para contextualizar, este excerto de uma análise da obra Viagens na Minha Terra  de Garrett por Jacinto Prado Coelho:  (1) 

"... Assim, na perspectiva pessoal de um livro de viagens, Garrett vai fazendo, a propósito, aqui e ali, a crítica à sociedade, portuguesa e internacional, de então: ' Nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso progresso social... "... Plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos-de-ferro, construí passarolas de Ícaro para andar... reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai' ... 'A ciência deste século é uma grandecíssima tola. E, como tal, presunçosa e cheia de orgulho dos néscios'.  '... Em Portugal não há religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu... ' 'Mais dez anos de barões e de regime da matéria, e infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espírito' ... 'Mas ainda espero melhor, todavia, porque o povo, o povo-povo, está são: os corruptos somos nós, os que cuidamos saber e ignoramos tudo'. 

 

Não vemos esta capacidade de auto-avaliação nas actuais elites. E aqui corrupto não é apenas o da matéria, é o do espírito, o da alma, o da percepção e da perspectiva, o dos preconceitos, o de uma moralidade mesquinha e arrogante. É precisa uma dimensão da inteligência e da consciência ética e moral que hoje já não existe.  (2)

Também este povo-povo já está meio domesticado pela tal instrução e literacia que mais não é do que formatação à medida da domesticação, uniformização e conformismo.

 

Quando esticamos o tempo histórico, as linhas paralelas cruzam-se nos planos que se curvam, e percebemos melhor o que nos foi acontecendo, ou deixámos que nos acontecesse.

Talvez este paralelismo com o impasse da monarquia constitucional do séc. XIX possa inspirar a sociedade civil a não se deixar liderar, manipular nem conduzir pelos barões do sistema e para encontrar soluções inteligentes e criativas para o impasse da bancarrota e da alternância sem saída.

 

Quanto a mim, ainda espero continuar a registar alguns vestígios desse Portugal antigo, já muito ténues é certo, mas que ainda impressionaram e fascinaram a minha curiosidade infantil. Personagens concretas, complexas, irrepetíveis.

 

 

 

 

(1)   Gigantes da Literatura Universal, Almeida Garrett, da Editorial Verbo, ed. 1972, vol. 21, pág. 48;

 

(2)  Sempre me fascinaram as inteligências brilhantes ligadas a uma consciência ética e moral abrangente. E muita coragem também. São muito raras. Garrett faz o balanço de um percurso de convicções políticas e os efeitos da transformação que provocaram na sociedade portuguesa. Magnífica a sua reflexão sobre a substituição do frade pelo barão: "... Segundo Garrett, esse lugar viria a ser ocupado pelos 'barões', e a troca foi má para a sociedade portuguesa: 'O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha; o barão é, em quase todos os pontos, o Sancho Pança da sociedade nova.' Assim, Portugal ficara privado de uma classe que era, de qualquer modo, 'portadora do espírito', mas cujo idealismo não foi compreendido, por não ter sabido adaptar-se às 'inspirações e aspirações do século'. " (Idem, pág. 99)

 

 

 

publicado às 11:55

Este governo e este PR tomaram posse comprometendo-se a servir os interesses do país. Mas a sua acção tem sido contraditória com o que assinaram e com o que dizem defender.

 

O governo com as suas conferências de imprensa e insistência nas mesmas soluções, cortes nos mais frágeis e nos mesmos de sempre, a carregar sempre na mesma tecla mesmo sabendo antecipadamente que essa repetição era inconstitucional, repetindo a propaganda da austeridade nas televisões através dos comentadores de serviço, mantendo em funções um ministro das finanças que já é percebido pelos cidadãos como um funcionário de Bruxelas, o que pretende a não ser a instabilidade política?

Primeiro ainda terá tentado neutralizar a oposição, o convite da RTP ao ex- PM para comentador político não foi inocente pois por uns dias o secretário-geral do PS pareceu agitar-se na cadeira. Falhada esta estratégia, ainda havia a hipótese do consenso alargado, mas também não pegou. Finalmente, ainda tem a instabilidade política de reserva, e é ver as frotas de carros (de marca alemã) alinhadas para os conselhos de ministros de 11 horas (!) e as informações que vão transpirando para fora (!) a revelar que isto está por um fio. Mas como isto já não funciona como chantagem política, já ninguém se comove, talvez funcione como justificação para algum deles abandonar o barco...

 

Só que se esqueceram que os cidadãos não estão para aturar mais instabilidade e insegurança, nem cortes nos mesmos, nem exemplos de gestão danosa, nem a manutenção do ministro das finanças. Querem aquilo que o governo ainda não conseguiu garantir: estabilidade e responsabilidade, resultados visíveis após tantos cortes nos mesmos, a economia a mexer, sinais de uma mudança cultural dos gestores políticos e financeiros, se têm de cortar que cortem nos interesses dos grupos protegidos, que façam o trabalho que lhes compete.

 

 

O PR falou em estabilidade, mas o discurso foi percebido como provocador para a oposição e para os próprios cidadãos. Se era estabilidade o que o PR pretendia defender, então porque foi percebido exactamente o contrário? E que cultura de base reflecte este discurso? Ausência de vitalidade, ausência de esperança, ausência de futuro. Claro que a partida da troika não acaba com a necessidade de recuperar a economia. Mas esta estratégia do governo é que não dá para a reanimar sequer. As pessoas concretas estão ausentes do discurso, apenas como pretexto para dar recados à oposição: não explorem a angústia das pessoas. Ora bem, quem anda a explorar a angústia das pessoas não é quem as assusta todos os dias com cortes e anúncios de cortes?, quem lhes retira a esperança e o futuro?, quem lhes coloca aos ombros toda a culpa dos desvarios de governos sucessivos desde o seu, o período do cavaquismo?, passando pelo pântano do guterrismo, seguido pelo abandono do barco do barrosismo, para dar tempo ao socratismo de nos vir deslumbrar com o seu malabarismo, e dar lugar à execução final de um plano para a Europa baseado na desvalorização do valor do trabalho?

 

Lembram-se que já um ministro da economia do anterior governo do PS falava disso?, de baixar os salários para competirmos com a China? O guião já lá estava. Lembram-se como o ex-PM já era um bom aluno de Bruxelas? O plano já lá estava. Lembram-se da ausência de supervisão bancária de Constâncio, o então governador do BdP e como foi promovido ao BCE? O puzzle compõe-se a pouco e pouco.

Também aqui, se o convite do ex-PM para comentador político na RTP pretendia incomodar o PR, isso pode explicar algumas indirectas ao PS. Os actuais gestores políticos ainda revelam uma sensibilidade muito egocentrada, tudo gira à sua volta.

 

Quando se fizer o balanço 1985- 2001 (condições da integração na CE), 2001 - 2004 (adaptação à moeda única) e 2005 - 2012 (a bancarrota e a perda da autonomia) já podemos entender melhor o que se passou cá e na Europa, que estes patamares andaram juntos, e evitar voltar a cometer os mesmos erros.

 

Para já, estabilidade e responsabilidade é o que se pede aos gestores políticos: governo e PR. Porque são eles os escolhidos nas eleições, depois de nos terem dito que estavam à altura do lugar.

E estabilidade e responsabilidade é também o que se espera da oposição. Se o governo não conseguir cumprir o seu papel, se desistir da tarefa ou se voltar a colocar os cidadão nas ruas e nas praças do país, tem de haver uma equipa preparada para aceitar o desafio. Preparada = em colaboração com a sociedade civil.

 

Portanto, se querem assustar os cidadãos que já cumpriram a sua parte e assim criar instabilidade, pensem de novo.

V. Ex.cias façam o favor de cumprir a vossa parte, atirem-se ao trabalho, revelem responsabilidade, e apresentem resultados.

O governo: se só sabe cortar, corte nos sítios por onde deveria ter começado. A estabilidade passa por respeitar os cidadãos que querem tréguas desta guerra psicológica, deste circo nas televisões, da voz do ministro das finanças.

O PR: é o mediador de possíveis encontros, acordos, negociações. Antes de discursar, é favor pedir a um especialista para lhe rever o texto.

A oposição: Ter a calma necessária para não se deixar provocar. Estarem atentos, alerta e garantir alguma estabilidade. Se o governo resolver provocar uma nova agitação social, tem de existir uma parte da organização política com a responsabilidade de manter alguma estabilidade. Pode ser que o governo atine. Pode ser que mude o ministro das finanças (o rosto da austeridade) e o da economia (que perdeu a credibilidade ao deixar esvaziar as suas funções). Pode ser que isto se aguente pelo menos até Setembro. Nessa altura já há as autárquicas.

 

 

 

 

Algumas horas mais tarde:

 

De facto, o governo, digo, o ministro das finanças resolveu esticar a corda e provocar reacções, na sua postura e atitude na comissão de inquérito. Reteve um documento importante, o DEO, da estratégia orçamental, e colocou, de forma ameaçadora, se não se pode aumentar impostos então vai-se pela despesa. Nada de novo. Com a mesma arrogância e indiferença a que nos habituou. É a repetição da chantagem e de tentar instilar o medo nos cidadãos, uma estratégia fria e calculada de provocar uma reacção que enfraquece quem lhe responder à letra.

Há muitas formas de violência e esta é uma delas. Uma espécie de violência psicológica mas que tem efeitos na vida das pessoas como se de uma guerra se tratasse. Nesse sentido, os tais cortes na despesa deixados em suspenso, assim friamente e em tom de ameaça, revelam uma indiferença que se torna até perversa.

 

É uma forma de violência fria e calculada a que não estavamos habituados. E com a qual ainda não aprendemos a lidar. Mas é bom que aprendamos depressa porque é com estes espécimens que teremos de lidar nos próximos tempos: tecnocratas europeus e gente que serve interesses financeiros, e que tem um plano para a Europa e para cada um dos países intervencionados ou apoiados.

 

 

Para concluir o dia de hoje com uma reflexão:

 

Espero que amanhã as manifestações na rua sejam mais de união das pessoas, da confiança em si próprias e na sua capacidade de sobrevivência, e que juntas se irão preparar para lidar com esta estratégia da violência, do que simples protestos.

Estamos para além do protesto, estamos já na fase da defesa da vida, porque já é de defesa da vida que se trata, de sobrevivência das pessoas.

A agitação social, sobretudo quando reactiva a provocações e ao esticar da corda, só enfraquece o mais fraco da equação. Há que fazer o caminho para se tornar mais forte.

A democracia tem mecanismos. A inteligência e a criatividade dos portugueses, e o seu instinto de sobrevivência, hão-de criar formas inteligentes de defender a vida das pessoas e de sobreviver à troika, a esta Europa, a estes tecnocratas e a este governo.

 

 

 

 

publicado às 13:04

Depois da liberdade e da responsabilidade, trago hoje, desse rio sem regresso, outro valor humano fundamental: a bondade. Escolhi este termo com muito cuidado porque vai mais longe do que a generosidade, o respeito pelo próximo. Também se baseia na empatia, mas de uma forma mais profunda do que o simples convívio amável. A verdadeira bondade é própria de muito poucos, implica uma consciência abrangente e a maturidade para perceber o seu papel no mundo e assumi-lo de forma responsável. E implica ainda uma cultura da igualdade, que actualmente vemos confinada à cultura cristã: somos todos irmãos e iguais. Só alguém que interiorizou esta cultura pode realmente olhar o outro como outro igual a si, no mesmo plano, na sua identidade humana comum. 

 

O filme que escolhi para este valor humano fundamental da bondade é um dos mais vistos na época natalícia: It's a Wonderful Life, traduzido por Do Céu Caiu uma Estrela. O título original é o que dá o mote à ideia que quis fixar hoje, porque se o anjo o veio ajudar, em resposta à sua prece, foi pela bondade desse homem aflito. E vou mais longe: sem a consciência abrangente da maturidade, sem a responsabilidade pelo seu papel na comunidade, e sem a bondade como base dessa compreensão do grande plano, esse homem não tinha sequer ouvido o anjo e a sua mensagem.

 

As cenas mais conhecidas do filme envolvem sobretudo os sonhos deste homem, George Bailey, enquanto jovem: quer construir coisas e quer viajar. O curso e as viagens serão adiados para apoiar outros, e irá acabar por ter de assegurar a continuidade do negócio do pai: um banco local de pequenos empréstimos. É aqui, neste pormenor, que este texto se começa a aproximar do tema, mas já lá iremos.

É este o papel estruturante de George Bailey na sua comunidade: a possibilidade de melhorar a vida de muitos dos seus habitantes, casas arejadas e confortáveis a baixo custo, uma vida digna. É aliás o que defende numa reunião com os administradores perante o homem mais rico e poderoso da cidade. Potter despreza as legítimas aspirações dos comuns mortais, que considera como não merecidas, acima das suas possibilidades. Onde já ouvimos isto?

Reparem como George Bailey procura que a sua visão seja compreendida e considerada por um Potter incapaz de empatia ou respeito pelo próximo. Potter apenas revela desprezo por essas pretensões porque não cabem na sua lógica lucrativa. Nem mesmo quando George Bailey, apelando à sua perspectiva lucrativa, lhe tenta demonstrar que pessoas com condições de vida mais dignas são melhores cidadãos e melhores clientes.

 

 

Começamos a ver aqui duas culturas inconciliáveis: o mundo dos George Baileys e o mundo dos Potter. E começamos a ver para que mundo nos estão a conduzir actualmente, na Europa e no país. Os discursos de um e de outro revelam-se perturbantemente actuais.

A cultura que prevaleceu na Europa e no país é claramente a do Potter: os mercados, os bancos, a dívida, a finança, em primeiro lugar. As vidas concretas das pessoas, as suas condições de vida, o trabalho, a economia, em último lugar.

 

A cultura que prevaleceu na Europa e no país é a decisão centralizada do cenário que estão a preparar para os países e, nesses países, para os cidadãos, sem considerar as aspirações legítimas dos cidadãos europeus e nacionais.

Um grupo de iluminados decide, sem considerar os cidadãos. Depois de os aliciarem a consumir durante anos, privam-nos não apenas do supérfluo, mas do essencial. Afinal viviam acima das suas possibilidades. Agora têm de reduzir drasticamente o seu nível de vida e as suas aspirações.

Começa-se pelos impostos. Empresas a fechar. O desemprego a disparar. Os cortes, por cima dos impostos e das taxas adicionais, baixam automaticamente os salários e o nível de vida. A emigração passa a ser uma forma de reduzir as estatísticas do desemprego e os custos da Segurança Social. País refundado, estão a ver?

 

Podem pensar que os George Baileys deste mundo estão desactualizados mas, contrariamente à sua perspectiva e ao cenário que nos estão a preparar na Europa e nos países do euro, o cenário que vale a pena construir é o que inclui os cidadãos e nem podia ser de outro modo. Só com os cidadãos se pode encarar uma economia saudável e a criação de riqueza. Só com uma cultura em que todos são respeitados como cidadãos se pode falar de democracia. E a democracia implica a participação de todos, cada um no seu papel e na sua responsabilidade. É essa cultura democrática que ainda precisamos de criar por cá.

Um primeiro fôlego dessa compreensão da cidadania foi o 15 de Setembro. Foi um primeiro fôlego. Nesse grande encontro e caminhada pelas ruas de Lisboa verificou-se pela primeira vez, talvez de forma mais genuína e autêntica do que o proprio 1º de Maio de 74 (com que foi comparado e em que tudo estava politicamente polarizado), a consciência da responsabilidade da cidadania.

 

George Bailey é essa consciência mas de forma mais abrangente. Ele adia os seus sonhos pelas aspirações legítimas dos habitantes da sua comunidade. Ele é um deles. E a comunidade está com ele, confia nele. 

No filme, Frank Capra, o realizador mais idealista que conheço, dá um jeito à história: é o mundo de George Bailey que prevalece no final, é a cultura da bondade, da coesão da comunidade, da dignidade humana, do cenário em que os cidadãos têm direito a um futuro, que prevalece no final. Mas também nos revela que foi precisa a intervenção divina, logo, não é tarefa fácil e depende de todos em conjunto, cada um no seu papel e com a sua responsabilidade.

 

No rio sem regresso encontram o filme completo, se o quiserem rever. Apontei uma janelinha (01:03:45 a 01:07:33) que inclui as minhas cenas preferidas e que se relacionam com a concretização do Bailey Park, porque são sempre essas as cenas que recordo em primeiro lugar quando penso no filme.

A continuação de uma época natalícia em que a bondade surja de vez em quando, é o que desejo a todos os Viajantes que por aqui vão passando.

 

 

publicado às 11:15

De um rio sem regresso, tal como prometi que iria fazer nesta época de reflexão, coloquei aqui a navegar o primeiro filme de um dos valores humanos fundamentais: a liberdade. A liberdade, como vimos, é um dos valores mais difíceis de conquistar e manter, depende da organização em que se vive mas também depende da consciência e maturidade de cada um, na sua própria escala e dimensão.

A liberdade está ligada à responsabilidade, não se podem considerar separadamente, uma depende da outra, e a forma de exercer uma tem de incluir a outra. É por isso que o filme que hoje trago desse rio traz um outro valor humano fundamental, a responsabilidade, com a mensagem essencial: quanto maior o poder de decisão e de influência das lideranças, maior a sua responsabilidade.

 

Neste filme, Executive Suite, o debate que se estabelece no gabinete entre dois modos de liderança, adapta-se perfeitamente aos tempos que temos vivido na Europa e no país. Uma das lideranças coloca como prioridade o lucro dos accionistas e a outra defende uma nova perspectiva: manter o prestígio da organização que depende da confiança dos clientes, e é dessa confiança que, por sua vez, depende a sua continuidade, o seu futuro. Se adaptarmos esta perspectiva à Europa e ao país, o que fica? Que o poder e o prestígio das instituições depende da confiança dos cidadãos. E tratando-se de instituições-chave na estrutura e organização colectiva, não é apenas o seu poder e prestígio, mas também a sua legitimidade.

 

 

 

 

Outra mensagem que o filme nos traz é que uma liderança capaz de manter viva uma organização, garantindo não apenas o lucro dos investidores, mas o prestígio da organização e a confiança dos seus clientes, implica mobilizar todos os elementos nesse propósito. Isso é dito claramente no filme: não é uma tarefa de um homem só, é uma tarefa de todos, cada um no seu papel. É um trabalho colectivo e organizado.

 

Esta cultura da responsabilidade teria sido providencial na Europa e no país. Lideranças que percebem que o prestígio e a legitimidade das organizações e instituições-chave que representam é a sua prioridade, baseiam a sua actuação e poder de decisão, não apenas em corresponder às exigências da parte mais influente, investidores e credores, mas em tentar conciliar as várias partes do grande plano.

 

Como vimos, as lideranças tinham um enorme desafio pela frente mas não estiveram à altura das suas responsabilidades:

 

- na Europa, nem o Prémio Nobel da Paz serviu para minimizar os danos do seu falhanço. A paz foi precisamente o que a CE quis introduzir na percepção dos cidadãos europeus numa tentativa tardia e desesperada que acabou por se revelar contraproducente. Não tendo respeitado as regras definidas, os acordos e tratados, passando por cima do equilíbrio de forças entre países, e atropelando direitos humanos fundamentais dos cidadãos dos países em apuros, privilegiando a parte mais poderosa e influente, a dos investidores e credores, comprometeram o prestígio e a legitimidades das instituições-chave que representam. Ao não darem sequer, aos países em apuros, a possibilidade de preparar estratégias adequadas e exequíveis de respeitar os compromissos assumidos, ou seja, pagar a dívida, comprometeram o prestígio e a legitimidades das instituições-chave que representam. Mas acima de tudo, estas lideranças comprometeram a continuidade dessas instituições-chave, a coesão europeia, a paz e o futuro. 

Numa cultura de responsabilidade teríamos hoje uma CE com prestígio e legitimidade, e cidadãos europeus mobilizados num propósito comum e confiantes no futuro.

 

- também no país, o desequilíbrio das decisões que privilegiaram a parte mais poderosa, numa lógica puramente financeira, foi percebido pelos cidadãos, e esta percepção comprometeu seriamente a confiança nas instituições-chave. Nada mais preocupante do que a percepção dos cidadãos do desequilíbrio entre uns poucos que pertencem a um grupo protegido, as excepções, e os cidadãos no seu conjunto, os comuns. E são instituições-chave que garantem o equilíbrio social e mantém a ordem e a estabilidade. 

Numa cultura de responsabilidade, ter-se-ia procurado o equilíbrio das partes envolvidas e garantir a confiança e mobilização dos cidadãos num mesmo propósito.

 

Uma comunidade ou sociedade democrática, isto é, organizada de forma equilibrada e saudável, baseia-se em regras bem definidas, que todos devem conhecer e cumprir, isto é, leis imparciais cuja eficácia é garantida pela Justiça. Quando se perde a confiança no cumprimento das decisões desta instituição-chave que é a base do equilíbrio das interacções entre grupos e cidadãos, tudo se deteriora e desaba, debilitando-se a democracia. 

 

publicado às 14:34


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